Havia no Rio de Janeiro, entre os Anos 50 e 60, dois editores e livreiros que mantinham a saudável tradição de reunir, quase diariamente, em suas respectivas livrarias, a fina flor da intelectualidade e da literatura brasileira para bater um papo, trocar idéias, amostrar os novos livros que cada um ia escrevendo e, inclusive, como lhes era docemente permitido, praticar o popular esporte de falar da vida alheia, principalmente dos desafetos pessoais e intransferíveis. Aqui em Fortaleza, dois livreiros nunca deixaram a literária peteca cair: Aníbal Bonavides e o Gabriel.
Pois muito bem, bem, bem, o editor e livreiro Sérgio Braga faz jus a esta nobre linhagem. De segunda a sexta-feira, no horário comercial, o gabinete do Sérgio Braga, ao olhar dos desavisados, não passa de um gabinete comum de qualquer executivo. Aos sábados, depois do meio dia, como num passe de mágica, dá-se a poética transformação. A estante do fundo da sala tem seus gabinetes abertos e liricamente se revela o oculto conteúdo: variegados e vítreos receptáculos prontos a acolher todo tipo de bebida, da cachaça de cabeça até o mais fino champanhe.
Em plena noite de domingo, meu dia preferido, bebendo um Corvo Di Salaparutta, siciliano bálsamo, presente da ex – tia Cefisa, me surpreendo com essa tarefa tão difícil que é definir um cidadão chamado Sérgio Braga. De vasta compleição física, trata-se de um sujeito grande, que poderia estar jogando basquete ao invés de ser livreiro. É um homem grande por fora e um grande homem por dentro. Cultiva a amizade como um jardineiro que ama orquídeas cultiva orquídeas. Fidelíssimo devoto de São Francisco, boêmio de escol, dono de um bom humor à toda prova e de uma generosidade que beira ao financeiro suicídio.
Honorável fundador do nosso Clube do Bode, por nós aclamado Pai-de-Chiqueiro Mór, por absoluta unanimidade, marido sem jaça, exercendo a molecagem cearense com toda maestria. Meu amigo Sérgio Braga é uma aula de humanidade e traz em torno da cabeça uma aura lírica que a todos atrai com uma afetividade magnética. Para mim, que sou amigo dele, Sérgio Braga só possui um leve defeito: é torcedor do Ceará, mas, enfim, ninguém é perfeito, nem eu. Se há um sinônimo perfeito para a palavra amizade, chama-se Sérgio Braga. Ele pode não ser o Romário, mas é o Cara. Evoé Baco, meu querido amigo. Longa vida e prosperidade.