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Antigamente o roubo era mais discreto.

Terça-feira, 1 de dezembro de 2009 Deixar um comentário

É tudo tão rico, tão farto, que o “que vergonha” não basta. Há uma estranha beleza nisso tudo. Temos de analisar a estética do roubo, da cumbuca, da mão grande.

Os atores estão bem. Na hora de pegar a bufunfa são cordiais e alegres. Depois mentem bem, não são canastrões. A mentira é calma, digna, não há rubores nem lágrimas.

Antigamente o roubo era mais discreto. Até que um famoso corrupto paulista cunhou a frase celebre: “10% é para garçom”. Ai tudo mudou. O vice-governador é acusado de querer 30% que esganação.

Antes, tínhamos a mala preta de dólares, depois veio à cueca e agora o cara enchendo as meias e dizendo: “botei nas meias porque não uso mala”. Acho que na cueca e meias é mais quentinho, sexualmente excitante.

E as desculpas? Como no mensalão: “ah, dinheiro de campanha!”. Mas, o Oscar da patranha vai para: “o dinheiro é para comprar panetones para crianças pobres”.

E é maravilhoso sabermos que, neste momento, há dezenas de políticos em todos os partidos vendo estas cenas e roubando sem parar. Eles sabem que a Justiça é cega e paralítica e usarão o “não, o não fiz, não sei.” E contam com a máxima inesquecível do Presidente do Senado: “o silêncio, a paciência e o tempo”.

por Arnaldo Jabor

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Poder ir.

sábado, 28 de novembro de 2009 1 comentário

E se, por algum motivo, você estivesse com vontade de morrer e anunciasse a todos da sua família ou até aos seus amigos mais próximos? Você pode pensar o seguinte: certo, mas claro que não iria falar nada antes; talvez só deixar uma mera cartinha de despedida. Mas eu digo, certo, com certeza você, se fizesse uma declaração antes do ato, gostaria de ouvir um não de todos, ou no minimo um desmaio de um ou dois, mas e se todos dissessem: “se esse é o seu desejo, então pode fazê-lo”. Você também, com certeza, iria ficar mais triste ainda, iria ficar mais revoltado ainda com o que lá que estivesse antes, mas será que você iria, agora, realmente fazer o ato?

Todos nós, abutres seres humanos, reclamamos da vida, reclamamos de tudo, falamos de Deus, falamos do diabo, falamos mal até de nós mesmos, mas o pior de tudo ou melhor, não sei, é que queremos com isso somente uma coisa: atenção.

Atenção de seja lá quem for importante pra nós. Uma pessoa, uma família, um gato, um cachorro. Queremos, às vezes, chocar. E, é claro, esperamos um retorno desse choque, esperamos que alguém tente nos deter de fazer, como muitos falam, uma besteira.

Então, você disse que ia cometer uma besteira e todos ficaram chocados, porém entenderam sua necessidade e, meio que, apoiaram-no. E agora, o que faria?

Posso dar uma dica: agora, o problema antigo que estava fazendo com que você cometesse uma “loucura” não é mais tão importante, pois acaba de entrar um novo problema em sua cabeça, o de ser o único responsável e pagar pra ver as consequências. Mas então, digníssimo leitor, você pergunta: mas eu seria o único mesmo a ver as consequências. E você não deixa de estar certo, mas agora você não irá chocar mais ninguém com o seu ato. E, com isso, você irá repensar milhões de vezes, pois será que vale a pena morrer só para chocar essas pessoas? Claro que não.

E você vai querer lutar para viver depois disso tudo, pois, agora, o pensamento será o da vingança de viver: “eles acham que sou fraco assim pra desistir, então vou mostrar quem vai viver bem e se dar melhor nessa vida”. Talvez, um bom exercício e ação para alguém que queira morrer, ou esteja pensando em tal vandalismo, seja avisar a “todos”, e cabe à “todos” decidir o que fazer.

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À Velhice.

Quinta-feira, 26 de novembro de 2009 1 comentário

É, você chegou. Chegou lentamente, mas, paradoxalmente, de uma vez só. Não poderia ter demorado um pouco mais? Ou será que a viagem estava realmente tão ruim assim para você querer chegar logo aqui? Pra alguns, você é até boa, mas realmente, lamento dizer por meio desta, que você não é bem-vinda. Infelizmente não foi. Sempre fui muito sincero com você e com a sua amiga. É, aquela mesmo, aquela que ninguém quer receber em casa. Quem não gosta de você, aí que não gosta da sua amiga mesmo. Sorte que ela aparece, ás vezes, algum tempo depois de você. Graças a Deus!

As pessoas que gostam de você são geralmente, eu acho, paradas ou acomodadas, sei lá. Só que eu não sou assim e nunca fui! Sempre gostei de ser livre como os passarinhos da fazenda, mas chega você e quer tirar tudo de mim duma hora pra outra. Volto a dizer: Velhice, você não é bem-vinda aqui em casa. Você devia desaparecer. Devia voltar de onde sei lá você saiu! Eu estava com tanta energia há um tempo atrás. Aí você vem e me dá uma rasteira dessas. Invade minha casa, minha família, minha vida pensando que pode fazer o que quiser com tudo e com todos. Infelizmente você pode.

Não posso negar que tenho pensado muito em você, Velhice. E, quanto mais penso, mais eu vejo o quanto as pessoas que conheço querem distância de você. Acho que você não deve prestar mesmo! Se você não se deu conta disso, vou alertá-la: cientistas do mundo todo estudam há anos uma forma de fazer você aparecer na vida das pessoas cada vez mais devagar; querem você extinta. Mas, não posso negar novamente que você é forte. Com tantas cabeças pensantes contra você, com tantos inimigos, e você não desiste nunca. Sempre arranjando um jeito de limitar as pessoas de boa índole.

Pra quem sempre andou com as próprias pernas, se é que me entende, e ainda anda, você terá que penar muito para me deter; para me maltratar mais ainda. Não sou fraco. Velhice, já notei que quer tirar tudo, que conquistei e gosto, de mim, mas não vai ser tão fácil assim, pois também tenho amigos, tenho aliados, sou esperto, sou uma pessoa rodada e a briga é, quase, de igual pra igual. Você, se quiser pode até pedir ajuda aquela sua amiga que citei, mas você estará sendo mais covarde ainda. Velhice, saiba que não vou arredar o pé daqui e se quer mesmo me detonar, vai ter que suar mais ainda.

Sinceramente,

Breno M.

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Motivação sempre.

Terça-feira, 24 de novembro de 2009 1 comentário

Alguém muito importante pra mim me falou nessa semana a seguinte frase: “cansaço de vez em quando, mas desmotivação jamais!”. E não deixa de ser uma frase que cabe a cada um de nós, humano. Dos mais atarefados até os mais descansados, pois o cansaço nem sempre vem do batente do dia-a-dia. Nos tempos corrido de hoje, temos que nos virar nos 30 e não desabar jamais, pois a rotina massacrante, infelizmente não dá trégua para quem se desmotiva. É uma selva.

Sou um ser ávido pelo consciente e inconsciente humano, portanto sempre pergunto aos colegas de plantão como eles fazem para enfrentar um dia de trabalho após o outro quando chegam cansados da rotina, e eles dizem: “tem manhãs que se for pra ficar o dia todo deitado, eu ficaria, mas o que me faz levantar da cama e encarar mais um leão no dia é a força de seguir meus sonhos”. É impressionante como a motivação, seja ela qual for, faz com que consigamos atravessar paredes e subir montanhas praticamente impossíveis.

Todo dia nós matamos um leão, um cabrito, uma vaca, seja lá o nome do obstáculo maior do dia que você quiser chamar, mas matamos. E com isso, vamos criando força para enfrentar os desafios de ontem, de hoje e os de amanhã.

Como citei no começo deste texto, cansaço de vez em quando, mas desmotivação jamais. Coloco novamente para nos lembrar. Quando os dias estão cansativos, os meses cansativos, até anos cansativos não significa realmente que a motivação acabou, pois enquanto nós estivermos respirando, ela nunca acabará.

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Quando estamos longe.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009 1 comentário

Quando estamos longe pode acontecer de tudo quando menos esperamos, acontece o provável e o improvável, claro. Pode acontecer subitamente um acidente mortal ou não em uma viagem que teria de tudo pra ser simples e feliz, pode acontecer um grande amor em sua vida que, se possível, seja pra vida toda ou não, pode acontecer uma surpresa de aniversário quando você não está nem pensando no assunto e que você nunca teve, pode acontecer uma briga entre melhores amigos, brigas entre familiares, rasteiras da vida com um e com outros, entre outros acontecimentos bons ou ruins.

Quando estamos longe parece que ocorre uma mágica e, às vezes, você pode ser mais importante longe do que perto para alguns, nunca perceberam? Pois é amigo leitor, para “alguns de perto” se tem mais cumplicidade quando estamos longe. A saudade é uma emoção importante para o convívio em geral, pois, com ela, ponderamos e podemos dar o devido valor aquela pessoa que não está mais “tão perto” quanto há 1h.

Felizmente ou infelizmente, quando estamos longe, acontecem coisas mais felizes e surpreendentes em tão pouco tempo do que em anos quando estamos tão perto. E olha que o local não precisa ser lá essa Europa toda, não. Só basta está rodeado de pessoas que já demonstraram por muitas ações o quanto querem que você seja feliz.

Temos que valorizar as pessoas quando elas estão ao nosso redor, quando elas estão por perto, pois aquela que viaja e está distante fisicamente, pode estar já há muito tempo distante espiritualmente e você ainda não se deu conta. E isso tudo digo que é só sobre uma viagem, mas não escrevo aqui sobre aquela “viagem definitiva” que todos fazemos. Que aí sim, muitos “de perto” tentaram fazer ligações, mas o sinal estará, com certeza por um tempo, fora de área.

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Carta à Geisy. por Ana Paula Padrão

segunda-feira, 9 de novembro de 2009 Deixar um comentário
Acabo de ler, aliviada, a decisão do reitor da Universidade Bandeirante, a Uniban, que revogou comunicado do conselho da própria universidade de expulsão da aluna Geisy Arruda.

Achei que só me restasse esperar, vestida com minha burca, comprada no Afeganistão, a chegada dos Talebans tupiniquins. Ora, se estavam devidamente cacifados por uma instituição de ensino que deveria alimentar e disseminar na sociedade a tolerância, o respeito e outros valores democráticos, os jovens donos da moral certamente invadiriam em seguida o sambódromo para cobrir as Evas e acabar com aquela pouca vergonha.

De qualquer maneira, é preciso pensar sobre o que levou o conselho de uma universidade, que se supõe formado de pessoas esclarecidas e cultas, a acusar a aluna Geisy de ter tido uma “atitude provocativa, que buscou chamar a atenção para si por conta de gestos e modos de se expressar”. Se é assim, pensei comigo ao ler o texto, já em antecipação aos novos tempos: o que seria das praias brasileiras, quando os arautos dos bons costumes se alastrassem, primeiro pelas demais universidades, depois pelos prédios públicos, até chegarem aos locais de aglomeração popular, gritando às mulheres, chicote nas mãos, que se cubram em nome da ética?

Sim, em nome da ética, foi como justificou o conselho da Uniban a atitude de seus alunos, descrita pela nota oficial por eles divulgada, como uma “reação coletiva de defesa do ambiente escolar”.

Um arrepio percorreu minha espinha. Certamente seria eu cosiderada – por eles, os justiceiros da dignidade – inadequada aos padrões desejáveis. Não que eu saia por aí de vestido cor-de-rosa curto – meu implacável senso crítico me diz que já passei da idade. Mas um corpo docente que não admite conviver com uma saia alguns centímetros acima dos joelhos, o que achará então de uma mulher que utiliza seus melhores atributos – a inteligência, a capacidade de articulação, a cultura – para com isso declarar-se independente do julgamento de um homem que diga a ela com que roupa ir aonde quer que seja?

Ler a delirante nota do conselho da Uniban faz meu estômago revirar. A aluna Geisy Arruda, que cumpria com suas obrigações curriculares e pagava suas mensalidades em dia teria sido expulsa “em razão do flagrante desrespeito aos princípios éticos da dignidade acadêmica e à moralidade”. Se é isso que eles escrevem, imagino o que pensam e comentam entre si sobre uma aluna que tem todo o direito de fazer suas próprias escolhas.

Ninguém tem que achá-las bonitas, corretas, louváveis, exemplares. Mas, se já não estamos mais na idade do obscurantismo, nem em Cabul, todos temos sim, que respeitá-las. Se foi esse sentimento que motivou o reitor da Uniban a reavaliar a decisão de seu conselho, loas a ele! Mas que a história toda é assustadora pela quantidade de preconceito envolvida, não há dúvida.

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Pra entender.

Domingo, 8 de novembro de 2009 Deixar um comentário

Nos tempos de hoje é preciso ter muita paciência para entender o outro. Paciência em entender os anseios do outro, os traumas do outro, as recordações inconscientes do outro, as irritações do outro, o mau-humor do outro, até a vontade de morrer do outro. Desde sempre, dia-a-dia vivemos em um poço sem fundo em que temos que nos adequar a cada segundo a cada pessoa que temos que cruzar caminhos. Se é que me entendem, ou não. Olho para os lados e vejo pessoas que parecem odiar suas vidas, começando pelo seu trabalho. E não é só aqui no Brasil.

Nós, decadentes seres humanos, fomos criados para reclamar, isso é uma certeza absoluta, e fica cada vez mais evidente em cada um de nós que não fomos feitos para sermos felizes, pois a face emburrada que geralmente, pra não fazer quase sempre, fazemos quando vai chegando mais uma bendita segunda-feira, ou até quando estamos num meio de um domingo melancólico às 18h da tarde. Todos reclamam. Uns reclamam porque vão ter que estudar, ou vão ter provas, cursos, o escambau. Outros reclamam porque vão voltar a mais um dia de trabalho “escravo”, ter que ver a cara também emburrada do chefe, ter que aguentar, às vezes ou não, calados as bestialidades dos clientes que também estão reclamando da vida. Ou seja, é um ciclo.

Vocês, queridos leitores, têm que aguentar até eu, um pobre coitado tentando escrever algo que não deixa de ser sobre a falta de paciência com a vida. Olha só! Enquanto isso, alguns tentam burlar a vida medíocre que todos nós temos, seja rico, pobre, feio, bonito, etc. Veja bem que não estou falando aqui de facilidades de vida, já que é claro que pessoas com melhores condições financeiras que outras têm uma inegável “visão” privilegiada sobre a tristeza humana, mas todos nós, desde quando nascemos já temos entranhados em nossa mente, em nosso coração até o sentimento de melancolia que toma conta da maioria, como já citei acima, em um domingo qualquer às 18h. Essa hora e dia é um conjunto que mais clama por nossos mais profundos desejos de tristeza e melancolia.

Portanto, quando você se deparar com alguém que está nitidamente pedindo a Deus que o leve para não meter a surra em, talvez, mais um, e você achar ruim, saiba que você pode estar nessa mesma situação. Só ainda não acordou pra realidade ou você não é mesmo um ser humano.

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Brincando de fazer filhos.

sábado, 7 de novembro de 2009 Deixar um comentário
A cada dia que passa me pego cada vez mais assustado em como homens e mulheres, como não poderia deixar de ser, já que não inventaram, por enquanto, uma forma de fertilização onde não se precise de uma parte do homem e de outra parte da mulher, fazem filhos como compram brinquedos ou como compram filhotes de cachorrinhos. Não falo pelos dias de hoje, mas sim, pelos dias de sempre em que ocorre uma espécie de castração do pensamento do futuro em relação ao filho. A maioria dos pais não pensa se os filhos que querem ter para mudar a rotina, mudar o casamento, fazendo inconscientemente com que este filho seja uma quebra das relações antigas da família antiga problemática que não deu certo.

Muitos casais ou não, têm a necessidade de ter um filho para criar a sua própria família muitas vezes pior do que a “antiga”; quebrar relações com a antiga é também um objetivo deste “querido filho”.

Estes “pais” não pensam nos problemas que este filho querido por trazer e aqueles podem ainda não tá preparados. Será que eles pensam se vão ter tempo para acompanhar o crescimento deles, se vão ter tempo para almoçar ou só jantar com eles, se vão ter tempo pra conversar sobre seus problemas com eles, se vão manter a calma quando os filhotes tiverem doentes, se vão manter mais a calma ainda se os filhotes queridos nascerem ou apresentarem no futuro uma doença crônica psíquica ou física. Será?

Pelo que ando observando e lendo em livros antigos e modernos sobre sociedades, sobre tudo em geral, vejo que cada vez mais nascem filhos de pais já mentalmente doentes, sem a mínima capacidade de educar, conversar, ou seja, ter um filho. É uma situação triste. É uma epidemia que atinge desde os namorados até os péssimos casados. O burro e a jumenta acham que tendo um filho vão ficar mais apaixonados ou tudo vai melhorar como um passe de mágica, e, quando não melhora, claro, o filho fica jogado de lado como uma bola de vôlei murcha. E os pais brigados ou voltam como antes: na tosca vida, ou seja, juntos mesmo sem querer.

Ter um filho não é esperar o melhor dele, não é tê-lo pra fazer planos mirabolantes por ele, não é pra pensar que ele será perfeito tanto como pessoa quando no quesito saúde etc e tal. Ter um filho é pensar no que ele pode não ser; é pensar no que ele pode não querer; é pensar nas consequências mais amargas da vida sobre a “família” já instalada. Ter filho não se resume em só dar comida. Filho não é cachorro. Quem dera que os futuros papais e os antigos pensassem assim.

Se você quer uma novidade em sua vida: compre um iPhone, compre um computador, compre um cachorro, cabrito, bezerro, o diabo a quatro, mas não tenha um filho pra ser colocado de lado. Procure um canil e aproveite e passe um tempo por lá, talvez.

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O dia de finados dos que ainda não foram.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009 Deixar um comentário

O dia de finados, para mim, é mais um dia. Muitas pessoas acham sagrado. Muitas acham que devemos parar tudo e rezar pelos que já se foram. Talvez até estejam certas, mas tenho, digamos, uma ideia formada sobre os que já foram. Pros finados que eram boas pessoas, que eram espíritos de boa repercussão quando encarnados, que eram pessoas que faziam o bem e que não perturbavam ninguém com suas infelizes presenças é uma pena terem ido senão tiver sido, no mínimo, por velhice, pois aqui na terra, nós, humanos, temos a impressão que tudo é fora do tempo, mas na verdade nós não tomamos conta direito nem das nossas miseráveis vidas quanto mais querer mandar no tempo do mundo e das pessoas.

E para as outras almas que graças a Deus já não estão entre nós, como alguns abutres que ficavam rodeando nós como almas pretas de ódio sem nem ao ter pelo menos ido pros quintos do inferno, é no mínimo uma sacanagem com os vivos. Ainda bem que já foram.

Pra mim, não existe isso de morreu e virou santo, como algumas pessoas ficam dizendo depois que o finado, insuportável a todos, morre. Eu já penso ao contrário; acho que já foi tarde! E geralmente, se esses finados podres não tivessem ido embora, quem poderia ir no lugar dele seria uma pessoa boa; uma pessoa melhor de alma, uma pessoa presente e que só lhe incentivasse. Então, quando tiver pena daquele abutre fedido que acabou de morrer e era tão ruim com você como o cão agarrado em Jesus, pense que no lugar dele poderia ter ido aquela pessoa que lhe apoia e lhe dá segurança na vida. Então, me diga a verdade. Sem hipocrisia.

A pessoa tem que ser santa (tentar, pois ninguém é, nem nunca vai ser) aqui na terra, aqui com as outras pessoas, com seus filhos, com seus parentes, com seus amigos, com seu companheiro e sua companheira, pois se não for, nem pelo menos tentar ser uma pessoa boa com estas, já pode ir pros quintos dos infernos. Algo é verdade: se não for ajudar, então não atrapalhe!

Aqui na terra já temos tantos problemas e, além disso, algumas pessoas acham de atrapalhar quem tenta fazer o bem e atrapalhar as pessoas de bem.

Então, uma reza bem forte para os finados que já foram, mas somente para os bons aqui na terra. E para os que ainda vão e são verdadeiros abutres pretos e almas cinzentas aqui na terra (e olha que conheço vários que estão merecendo), vão atrapalhar a vida dos outros no lugar de vocês: NOS QUINTOS DOS INFERNOS!

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A gente decide. por Lya Luft

Domingo, 18 de outubro de 2009 Deixar um comentário

No dia dos seus 102 anos, uma adorável matriarca está sentada junto à mesa de sua cozinha, rodeada de filhas e amigas. Ela corta os quiabos que serão preparados e servidos mais tarde aos visitantes, como de costume. Entrevistada, diz ao jornalista: “A vida, a gente é que decide. Eu escolhi a felicidade”.

A aniversariante, dona Canô, mãe de Bethânia, minha irmã querida, naturalmente não quis dizer que “escolher a felicidade” é viver sem problemas, sem dramas pessoais ou as dores do mundo. Nem quer dizer ser irresponsável, eternamente infantil. Ao contrário, a entrevistada falou em “decidir” e “escolher”.

Apesar de fatalidades como a doença e a morte, o desemprego, as perdas amorosas, a falta do dinheiro essencial à dignidade, podemos decidir que tudo fica como está ou vai melhorar, dentro do que podemos. Posso optar por me sentir injustiçada, ficando amarga e sombria; posso escolher acreditar no ser humano e em alguma coisa maior do que toda a nossa humana circunstância; posso buscar sempre alguma claridade, e colaborar com ela. Dentro de minhas limitações pessoais e de minha condição individual, eu faço diferença, todos fazemos.

Desse início pessoal, passo ao mais geral: leio que 40% dos nossos jovens e crianças vivem abaixo da linha de pobreza; que o desemprego é uma calamidade, a violência cresce a cada dia e o analfabetismo não diminui; que crianças continuam, aos milhares e milhares, brincando no barro feito de terra e esgoto. Leio, vejo e sei que milhares e milhares de velhos vivem em condições sub-humanas, pois sua aposentadoria é miserável, o serviço de saúde pública também, morre-se em corredores de hospitais ou em filas de postos de saúde, onde médicos exaustos e pessimamente pagos fazem muito mais do que podem.

Ilustração Atômica Studio

Não vou recitar a ladainha de que as circunstâncias não justificam euforia nem ufanismo simplesmente porque nós não decidimos algo melhor do que isso que escrevi acima, e todo o resto que qualquer um conhece – e apesar disso continuamos deitando a cabeça no travesseiro toda noite e dormindo quem sabe até bem.

Tenho medo do ufanismo: ele pode ser burro e cego. Olimpíada no Brasil, Copa do Mundo no Brasil, tudo bem: mas eu preferia que antes disso a gente tivesse resolvido os gravíssimos e tristes problemas, tão dramáticos, de comida, saúde, educação, moradia, decência e dignidade de boa parte do povo brasileiro que agora samba e celebra porque teremos Copa, teremos Olimpíada, teremos festa.

Sei que este não é um artigo simpático. Certamente não é alegrinho. Realmente ele trata do que não decidimos, ou decidimos mal, ou decidimos não decidir, como, por exemplo, exigir líderes mais sensatos, mais presentes, mais realistas, mais dignos em todos os níveis. Podíamos decidir ser mais respeitados enquanto povo, mais olhados enquanto gente, mais seguros e mais protegidos enquanto sociedade.

Ou isso a gente não decide porque nem sabe das coisas, pois não se informa, não sabe ler, se sabe ler não costuma, nem o jornal esquecido no banco do ônibus. Onde o povo carrega doença e dor, descrença e desalento, mas também, aqui e ali, leva um jornal para saber onde afinal vivemos, em quem afinal podemos acreditar, e o que afinal deveríamos esperar. Indagados, os mais desassistidos dirão que Deus é quem sabe, Deus decide, a quem ama Deus faz sofrer – frase de imensurável crueldade.

Ou será melhor nem saber nem aprender a ler, nem pegar a folha de jornal, nem ouvir o noticioso no radinho de pilha. Basta saber que sempre há em algum canto motivo para um breve ou longo carnaval, celebrando alguma coisa que possivelmente não vai encher nem o nosso bolso nem a barriga de nossos filhos, nem construir uma casa decente, nem botar esgoto, nem cuidar da nossa saúde, nem amparar nossos velhos, nem coisa nenhuma que seja forte, firme, boa e real. Porque, infelizmente, por aqui ainda decidimos pouco, e poucas vezes decidimos bem. Não porque Deus quis assim, mas porque a gente nem ao menos sabe por onde começar.

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